Por que fotografar mulheres?

Eu amo fotografar. Entrei há pouco tempo neste mundo encantado, mas, como qualquer bom iniciante, já fotografei de (quase) tudo. Paisagens, casais, gestantes, crianças, famílias… Todos foram especiais e únicos. Mas foi quando eu fiz meu primeiro ensaio feminino que eu me descobri: “É isso que eu quero fazer!”. Aí você pergunta: “Mas, por quê?”.

Bom, vamos lá. Sou mulher. Quando criança, eu brincava muito de boneca, casinha, comidinha e afins. Mas eu babava mesmo nos carrinhos maneiros de controle-remoto do meu irmão! Cara, aquilo era muito legal! Mas não eram meus, afinal; o certo era eu gostar da minha Barbie de cabelos dourados, cintura de pilão e pele de pêssego. Na adolescência, assim como tantos outros adolescentes, eu engordei bastante durante a tal “fase de crescimento”. Sofria muita pressão externa e interna para emagrecer. Todos me diziam que eu estava gorda e feia, muitas vezes só com o olhar; adjetivos que o espelho fazia questão de enfatizar. Fiz uma infinidade de dietas (sem nenhum resultado), passei por uma longa depressão, chorava praticamente todos os dias. Alguns anos depois, já na fase adulta – agora magra, de bem comigo mesma e feliz -, em certo momento, sem que eu houvesse perguntado, foram-me despejadas algumas “verdades”: “você precisa malhar, você tá gorda e flácida… vai pra academia!” (um detalhe: sou magra e pratico atividades físicas; mas, até pelo meu histórico da adolescência, meu corpo não é esculpido, minha pele não tem a firmeza de um atleta e, sim, tenho estrias e celulites.). Por acaso, essa mesmíssima pessoa estava acima do peso e não praticava nenhum exercício físico. A diferença: ele é um homem, e um homem não é obrigado.

Eu poderia fornecer mais argumentos, e continuar falando sobre as tantas mulheres que trabalham fora e, ao chegarem em casa, ainda são obrigadas a cuidar da limpeza, da comida, dos filhos e do marido, enquanto este descansa depois de um longo dia. Ou sobre o preconceito que as mulheres encontram no mercado de trabalho, desde a contratação até os cargos de gerência. Ou sobre os abusos que sofremos diariamente, seja nas festas, quando estamos vestidas “para matar”, seja em pleno dia útil de trabalho, quando estamos de calça jeans e camiseta. Ou sobre a pressão do mercado da moda, e da sociedade como um todo, de estarmos sempre belas, bem cuidadas, maquiadas, magras e saudáveis. Ou sobre tantos outros e inúmeros assuntos…

Não, não é fácil ser mulher. E sim, é exatamente por isso que eu quero fotografá-la. Quero mostrar que sua beleza não está naquilo que as revistas dizem ou no que os outros pensam; quero mostrar que seus quilinhos a mais ou a menos são absolutamente insignificantes; quero provar que elas são lindas e perfeitas do jeitinho que são. Cada uma com sua personalidade, sua história, seus pesares e suas vitórias; cada uma com um brilho diferente no olhar, um encanto único e singular. Quero que elas enxerguem sua força, sua luz, sua coragem; quero que elas busquem incansavelmente por sua liberdade.

Quando eu fotografo uma mulher, não o faço para que ela ache as fotos bonitas simplesmente. Isso é apenas consequência. O que eu busco, na verdade, é que ela se reconheça naquelas imagens e se afirme com sua beleza. Que ela celebre o momento que está vivendo, seja para recordar as boas lembranças, seja para marcar uma mudança de fase. Que ela se liberte de suas amarras, que ela se sinta livre e independente, que ela se sinta capaz do que quiser. Meu objetivo, de verdade, é proporcionar um encontro dela com ela mesma.

Obviamente, tudo isso que eu proponho não é uma tarefa fácil. Estou longe ainda do meu objetivo, e é minha obrigação estudar, vivenciar, experimentar, aprender incessantemente para um dia, quem sabe, atingi-lo. Mas de uma coisa eu tenho certeza: chegando lá ou não, terei conhecido histórias incríveis e mulheres sensacionais. Só por isso, já terá valido a pena.

Débora Bossois.

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